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TEXTO

Me ouve: viver é risco de ferimentos graves

Uma criança brincando só quer ser feliz. Em termos mais elaborados, talvez ela queira se sentir acolhida em sua espontaneidade. Protegida naquilo que satisfaz uma necessidade. É assim que eu crio hoje

Tenho escrevido pouco, mas senti muita vontade de falar com as pessoas queridas que dedicam parte preciosa da própria atenção para ler, me ler.

No ano passado eu lancei um livro de poemas e em 2026 eu queria continuar sendo criativo, criando coisas e sobretudo compartilhando essas coisas com as pessoas. Então, me desafiei a lançar um single. Um single. Uma música, em algum momento do ano.

O momento é o presente e a música para esse momento é essa.

Mas antes de Desajustado, quase sem aviso, eu decidi, do nada, lançar uma mixtape inteira, com tudo que eu tinha gravado nos últimos seis anos.

O motivo para não lançar antes era porque eu idealizei esse trabalho com todas as especificidades técnicas em termos de produção, quando eu estivesse completamente comprometido com os cuidados com a minha voz e sobretudo quando eu tivesse o orçamento ideal para fazer tudo isso. Eu tinha até um média-metragem idealizado, com roteiro, elenco, previsão de orçamento e tudo!

Mas esse ideal nunca chegou e com o tempo aquilo virou um nó na garganta, um peso nas costas, um entrave que parecia me impedir de evoluir. A pressão que eu estava colocando em cima daquele sonho estava matando o sonho e tudo ao redor.

Lançar o meu tão sonhado álbum de estreia assim, portanto, diminuído a uma mixtape, sem todo o conceito, sem um terço dos cuidados que eu tanto queria dedicar a cada parte, parecia um insulto, até uma crueldade para alguém que se contentava com satisfações tão sutis. Mas, de repente, passou a ser a única saída e a única vontade que importava, quase como uma necessidade.

Essa consciência começou a surgir quando lembrei de um depoimento que dei no ano passado para um projeto sem previsão de lançamento. O diretor me perguntou algo que eu não lembro exatamente. Também de forma vaga, lembro da resposta. Tinha a ver com música, o fazer criativo:

“Uma criança que quer ser amada, que quer brincar”, foi o que eu disse.

A menção à infância me levou de volta ao meu quarto, num tempo em que eu detalhava o meu cotidiano e a minha personalidade em formação em muitos diários. Quando no meio das minhas confissões juvenis eu criava listas das minhas músicas prediletas e aquelas eram, então, as setlists dos meus shows.

Quando eu subia na velha poltrona cinza e aquele era o palco onde eu performava, também onde recebia os meus prêmios e discursava emocionado. No quarto onde na adolescência meu objeto mais valioso passou a ser o meu cd player e a minha pequena coleção de cassetes e álbuns. Onde eu descobri Sade, Prince, The Smiths, Nirvana, a MPB e o pop e o indie, onde me apaixonei por Christina Aguilera e Morcheeba.

Hoje, quatro meses depois do lançamento de RISCO DE FERIMENTOS GRAVES: MIXTAPE UM, vejo que estou trilhando um caminho muito enriquecedor por conta daquela decisão de fazer o upload das minhas músicas inacabadas nas plataformas de streaming. Porque, no fundo e de forma prática, significou permitir que as pessoas me vejam e me julguem, nas minhas potências e imperfeições.

Me permitir não ser gostado, não ser apreciado, não ser notado. Permitir que opinião das pessoas não seja matéria prima para minha validação enquanto alguém que cria e faz arte. Permitir me colocar sob excrutínio para me fortalecer, me deixar mais sábio, me tornar um artista mais preparado e mais interessante.

Uma criança brincando só quer ser feliz. Não se importa com o resto. Em termos mais elaborados, talvez ela queira se sentir acolhida em sua espontaneidade. Protegida naquilo que a satisfaz, que satisfaz uma necessidade essencial de se expressar, de se conectar com os outros por meio daquilo que é mais puro e lúdico. De certa forma, é assim que eu crio hoje.

Como alguém que não precisa estar preparado para brincar, mas que se compromete no momento em que a brincadeira se apresenta. Como alguém que não sonha em brincar, apenas brinca. Apenas é. Como um pássaro apenas voa, quando fora da gaiola.

Por conta disso e por conta do que estou construindo para o futuro, quero muito ser ouvido. Se você que está aí lendo esse texto gosta de mim, gosta do que escrevo, gosta da minha voz a da minha artisticidade, da minha personalidade, me ouve. Se não me conhece mas ficou curioso por conta desse texto, me ouve.

Se não gostar de primeira, tenta de novo. Presta atenção nos beats e melodias cativantes do Vei Beats, nas letras que escrevi e que falam de desejos, fraquezas, amores e a busca por um sentido na vida, nos vocais, na forma como canto, “uma linha discreta entre dor e tesão”, (!!!) para alguns. Música é repetição, já dizia o sábio Edem Eutrópio, que em pleno pós-pandemia emprestou sua sala (e seu banheiro!), equipamentos e expertise de músico indie para captar a voz de um jovem cru e visceral, que acabava de perder o pai e só queria gravar umas músicas que tinha escrito.

O título Risco de Ferimentos Graves surgiu enquanto eu lia um aviso sobre acidentes nas portas do metrô em São Paulo. Pensei no quanto um incidente qualquer pode interferir na nossa vida cotidiana de forma tão radical, tão de repente. No quão insignificante podemos ser. Frágeis, suscetíveis a um acidente. Uma queda, uma porta que se fecha. Um objeto que se move abruptamente. A força da natureza. Alguém que chega. Alguém que vai.

A vida é um constante risco, mas isto não é necessariamente ruim. Nos sugere viver com mais presença, mais prazer. Com mais atenção e mais intenção, mais propósito. Quero que a minha música desperte o mesmo.

Esse é o espírito que permeia a primeira, desse projeto em três partes.

Vocês poderão ouvir RISCO DE FERIMENTOS GRAVES: MIXTAPE DOIS, em 11/11.

Até lá, permitam-se conhecer os meus defeitos um pouco melhor.